quarta-feira, 29 de maio de 2013

Arquétipos

arquétipos

Um dos primeiros motes que levaram à criação da Umbanda foi o preconceito que era exercido dentro dos centros espíritas no que diz respeito às comunicações de espíritos que se apresentassem em quaisquer formas diferentes daquela que consideravam “evoluída”, ou seja, europeus (ou descendentes) que demonstrassem nível cultural (pelos padrões terrenos) adequado e aparentassem bom padrão social. Esse comportamento é compreensível quando do início da prática espírita, em plena Europa Iluminista, mas era inaceitável em uma terra cuja população era predominantemente mestiça e onde as culturas negra e indígena tinham já grande influência. De um ponto de vista reencarnacionista, é bastante simples compreender que um espírito comunicante, ao se apresentar sob determinada forma, o faz por sua vontade (desde que tenha evolução para tal), normalmente devido à afinidade que tem com as egrégoras e energias que lhe são afins, e não meramente porque esta foi a forma de sua última encarnação. Há, sem dúvida, irmãos em fase ainda tão inicial em sua caminhada que não tem ainda o controle necessário para plasmar sua forma conforme a vontade, mas a diferença entre estes deve ser notada principalmente pela mensagem, pelo que apresenta, e não pelo julgamento da aparência externa, que justamente por ser moldável, é o mais fraco dos parâmetros. E já na primeira comunicação da Umbanda, ainda sem nome e dentro de um centro espírita, o espírito elevadíssimo, que dentre tantas passagens terrenas fora um frei espanhol, escolhe a roupagem fluídica de índio para se apresentar e trazer ao planeta a religião de Umbanda que ali se iniciava.

No entanto, seria ainda muito simplista dizer que a apresentação dos espíritos, a escolha de sua roupagem, se dá meramente por sua vontade. Sempre se diz que a Umbanda tem fundamento, e a espiritualidade nada faz sem motivo. Assim, quando os pilares da nova religião foram definidos entre Caboclos, Pretos-Velhos, Exus e Crianças, isso não se deu apenas por afinidade ou acaso, mas por estarem aí inclusos todos os símbolos necessários à missão que se apresentava. Primeiramente, para banir de vez o preconceito, foram abarcadas todas as raças que formaram o povo. Negros, índios e brancos, todos teriam coisas a ensinar, todos teriam difundido o seu conhecimento e visão de mundo, mostrando que, na verdade, todos são um só, e o caminho para a luz pode ter vários trajetos, mas apenas um fim. Além disso, as várias etapas da vida terrena, cada qual com sua virtude, estariam também ali presentes. As Crianças com sua alegria e inocência, sem temor diante da dificuldade. A disposição e agilidade do Caboclo, sempre movendo todas as energias necessárias e utilizando tudo ao seu redor para que os objetivos possam ser alcançados. A seriedade do Exu, não medindo esforços para que a Lei seja cumprida, sem pena e sem questionamentos. E a humildade e paciência infinitas dos Pretos-Velhos, que em sua sabedoria tem sempre os conselhos necessários e os atalhos para facilitar o nosso caminho por entre as dificuldades. Tudo tem sua função, todas de igual importância, para que sempre lembremos disso: somos todos iguais aos olhos do Pai.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Politeísta?

Emanações
Uma das grandes dúvidas que se apresenta a quem chega à Umbanda é sua suposta condição politeísta. Aí você me diz: “Mas como assim suposta? Não temos os nossos Orixás?”. Sim, claro que sim, a questão aí é a conceituação de divindade. O conceito africano de Orixá, e que é assim também entendido no Candomblé, é o de que seriam ancestrais divinizados. Assim sendo, cada tribo, aldeia ou agrupamento familiar teria o seu próprio Orixá, cultuado por aquele grupo geração após geração, o que explica o imenso número de Orixás que recebiam culto em solo africano (a maioria dos estudos sugere algo em torno de 400). Com a vinda dos africanos para as Américas, na condição de escravos, foi necessário adaptar seu culto, pois que os grupos eram desmembrados na venda aos senhores, com o objetivo de coibir possíveis rebeliões. A saída encontrada foi desenvolver um culto que louvasse a todos aqueles ancestrais em conjunto, e com isso foram, por afinidade, se agrupando os ancestrais tribais em grandes subgrupos, que mantiveram o nome de Orixás. Esse passo foi muito importante no sentido de tornar o culto menos individualizado e mais voltado às forças da natureza comandadas por cada Orixá, uma vez que esta prática favorecia o caráter coletivo de cada grupo de culto. Quando do advento da Umbanda, coube à espiritualidade tornar a figura do Orixá ainda mais sutil, representando um raio do poder infinito de Deus (Zambi, Olorum, Obatalá ou qualquer outro nome que seja usado é apenas mais uma denominação para o Criador), uma força, um elemento da natureza. E assim, na Umbanda, todos os ancestrais, elementais e forças da natureza que se afinizam com as matas e a caça (que simboliza a prosperidade) passaram a ser cultuadas como Oxóssi, as que se afinizam com a justiça e a firmeza de propósito se reuniram em Xangô, e assim por diante. Deste modo, não fica difícil entender porque podemos dizer com tranquilidade que a Umbanda é sim uma religião monoteísta, mas que cultua a divindade em todas as suas expressões naturais, buscando a harmonia e a sintonia com os planos superiores.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Caridade na Umbanda

caridade

Não poderia haver maneira mais adequada de iniciar um estudo sobre a Umbanda do que falando sobre caridade. A própria Umbanda, no momento do seu advento, foi definida pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas como a “manifestação do espírito para a caridade”. Podemos entender então que todo trabalho realizado sob a bandeira de Oxalá é, ou ao menos deveria ser, voltado à prática da caridade. Mas o que é caridade do ponto de vista umbandista? A sociedade moderna nos acostumou a entender caridade como um ato material, seja em uma simples esmola, ou na doação de comida, roupas, calçados, brinquedos ou mesmo dinheiro. Entretanto não seria razoável esperar que uma religião calcada na espiritualidade tivesse mais a oferecer do que meramente benefício material? E assim, de fato, é. A prática da caridade nas tendas e centros tem como principal objetivo o amparo espiritual aos irmãos que os procuram, e a partir disso promover a evolução de todos os envolvidos. Sim, porque tanto auxiliado (e eventuais “amigos” que o acompanham) quanto o médium que o auxilia (e seus protetores) estarão dando mais um passo na direção da luz. Notem que não venho desmerecer as obras caritativas de ordem material, que certamente são de grande importância e tornam muitas jornadas terrenas mais brandas, mas convenhamos que não haveria aí necessidade da manifestação dos espíritos, e, por conseguinte, nem de Umbanda. O diferencial do trabalho espiritual é justamente a possibilidade de auxílio moral e extra físico, inicialmente limpando e equilibrando energeticamente o consulente, e depois orientando-o no caminho da espiritualidade maior.  E não podemos menosprezar também o grande serviço realizado por nossos mentores no combate ao astral inferior e na condução de nossos irmãos desencarnados que se encontram caídos ao caminho da luz.

Podemos dividir os trabalhos de caridade em três grandes grupos:

- Consultas

- Limpezas

- Cura

As consultas têm o objetivo principal de orientar o irmão que ali se encontra nas dúvidas e dilemas que se apresentam em sua jornada terrestre. O caráter da consulta é, quase sempre, de orientação moral, porém é também nessa hora que os guias e protetores podem detectar qualquer desequilíbrio que possa estar afligindo o consulente, e receitando o que for necessário para a sua melhora, sejam banhos, oferendas ou a realização de outros rituais mais específicos. Infelizmente ainda são muitos os que procuram as casas de Umbanda no intuito de conseguir vantagens materiais, amarrações ou prejudicar quem quer que seja. É de suma importância que, a cada oportunidade, lembremos: nada disso é Umbanda!

Os rituais de limpeza podem se dar de várias formas, mas os mais frequentes são os banhos, os passes (individuais ou nas “correntes”) e, em casos mais complicados, os chamados “descarregos” ou “sacudimentos”, onde diversos elementos poderão ser utilizados com a finalidade de limpar o corpo etéreo do filho de fé e equilibrá-lo energeticamente, retirando todos os miasmas, larvas espirituais e mesmo espíritos obsessores que estejam acoplados à sua aura.

Por fim, os trabalhos de cura, que podem incluir passes, oferendas, banhos e diversos outros tipos de ritual, com a finalidade de, a partir da manipulação dos corpos energéticos, alcançar a melhora, ou mesmo a cura total, do corpo físico do indivíduo. É fundamental, no entanto, lembrar sempre que, embora o tratamento de cura espiritual seja um auxílio que pode, sim, mediante o merecimento e a missão kármica de cada um, promover a cura do corpo físico, nunca se deve abandonar a medicina convencional das enfermidades, pois que cada um tem sua missão na terra que pode incluir a prova do tratamento físico da doença.