Um dos primeiros motes que levaram à criação da Umbanda foi o preconceito que era exercido dentro dos centros espíritas no que diz respeito às comunicações de espíritos que se apresentassem em quaisquer formas diferentes daquela que consideravam “evoluída”, ou seja, europeus (ou descendentes) que demonstrassem nível cultural (pelos padrões terrenos) adequado e aparentassem bom padrão social. Esse comportamento é compreensível quando do início da prática espírita, em plena Europa Iluminista, mas era inaceitável em uma terra cuja população era predominantemente mestiça e onde as culturas negra e indígena tinham já grande influência. De um ponto de vista reencarnacionista, é bastante simples compreender que um espírito comunicante, ao se apresentar sob determinada forma, o faz por sua vontade (desde que tenha evolução para tal), normalmente devido à afinidade que tem com as egrégoras e energias que lhe são afins, e não meramente porque esta foi a forma de sua última encarnação. Há, sem dúvida, irmãos em fase ainda tão inicial em sua caminhada que não tem ainda o controle necessário para plasmar sua forma conforme a vontade, mas a diferença entre estes deve ser notada principalmente pela mensagem, pelo que apresenta, e não pelo julgamento da aparência externa, que justamente por ser moldável, é o mais fraco dos parâmetros. E já na primeira comunicação da Umbanda, ainda sem nome e dentro de um centro espírita, o espírito elevadíssimo, que dentre tantas passagens terrenas fora um frei espanhol, escolhe a roupagem fluídica de índio para se apresentar e trazer ao planeta a religião de Umbanda que ali se iniciava.
No entanto, seria ainda muito simplista dizer que a apresentação dos espíritos, a escolha de sua roupagem, se dá meramente por sua vontade. Sempre se diz que a Umbanda tem fundamento, e a espiritualidade nada faz sem motivo. Assim, quando os pilares da nova religião foram definidos entre Caboclos, Pretos-Velhos, Exus e Crianças, isso não se deu apenas por afinidade ou acaso, mas por estarem aí inclusos todos os símbolos necessários à missão que se apresentava. Primeiramente, para banir de vez o preconceito, foram abarcadas todas as raças que formaram o povo. Negros, índios e brancos, todos teriam coisas a ensinar, todos teriam difundido o seu conhecimento e visão de mundo, mostrando que, na verdade, todos são um só, e o caminho para a luz pode ter vários trajetos, mas apenas um fim. Além disso, as várias etapas da vida terrena, cada qual com sua virtude, estariam também ali presentes. As Crianças com sua alegria e inocência, sem temor diante da dificuldade. A disposição e agilidade do Caboclo, sempre movendo todas as energias necessárias e utilizando tudo ao seu redor para que os objetivos possam ser alcançados. A seriedade do Exu, não medindo esforços para que a Lei seja cumprida, sem pena e sem questionamentos. E a humildade e paciência infinitas dos Pretos-Velhos, que em sua sabedoria tem sempre os conselhos necessários e os atalhos para facilitar o nosso caminho por entre as dificuldades. Tudo tem sua função, todas de igual importância, para que sempre lembremos disso: somos todos iguais aos olhos do Pai.